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Fundadoras do Nubank e do Love Mondays dão conselhos para mulheres que querem crescer na carreira

Chegar a uma posição de liderança sendo mulher nunca foi uma tarefa fácil. Mesmo que a pauta seja fortemente discutida durante os últimos anos, dados organizados pelo IBGE indicam que apenas 39,1% dos cargos gerenciais do setor público e privado eram ocupados por mulheres em 2017.

O mesmo estudo também mostrou que mulheres continuam recebendo menos que homens – em média, cerca de ¾ da remuneração deles. No ano de 2016, enquanto o rendimento médio mensal da população masculina foi de R$ 2.306, elas recebiam R$1.764.

Muitas profissionais estão trabalhando para mudar estas estatísticas. Cristina Junqueira, cofundadora e VP do Nubank, e Luciana Caletti, cofundadora e CEO do Love Mondays, são apenas dois exemplos de mulheres que estão revolucionando o mercado de trabalho.

Conversamos com elas para entender como é a trajetória de uma executiva no mercado de trabalho brasileiro e também reunir conselhos para mulheres que, assim como elas, querem crescer em suas carreiras. Confira as entrevistas na íntegra:

Cristina Junqueira, cofundadora e VP do Nubank

Cristina Junqueira construiu uma carreira dentro do mercado financeiro e fundou uma das maiores fintechs brasileiras, o Nubank. Sua formação inclui graduação e mestrado no ramo da engenharia, pela Universidade de São Paulo, e MBA em finanças e marketing na Kellogg School of Management.

 

Durante sua carreira, você enfrentou algum desafio específico por ser mulher?

Apesar de hoje já termos algumas referências de mulheres ocupando altos cargos de liderança nas empresas, eu sempre fui uma das poucas, se não a única mulher em todos os times por onde passei até chegar ao Nubank, e certamente isso torna as coisas ainda mais desafiadoras. Na maioria das vezes, essas barreiras se manifestavam de maneiras muito sutis, com mulheres e homens sendo avaliados e consequentemente promovidos com base em critérios distintos, por exemplo. É preciso estar preparada para continuar mostrando que, embora comuns, esses preconceitos não podem mais existir.

Qual mulher te inspirou durante sua trajetória profissional? Por quê?

Desde que comecei a empreender, tive a honra e o privilégio de conhecer e me juntar a diversas mulheres incríveis que estão fazendo a diferença nos seus respectivos campos. Nesse sentido, uma das pessoas que eu mais admiro é a Melinda Gates e o trabalho incrível que ela tem feito à frente da BIll & Melinda Gates Foundation. Ela foi a primeira mulher a doar mais de 40 bilhões de dólares a serem investidos em mulheres e meninas no mundo todo, em função do comprovado poder transformador delas nas suas respectivas sociedades.

Que conselho você daria para profissionais mulheres que querem crescer na carreira?

Primeiro, falem sobre o assunto. Falem umas com as outras, falem com seus amigos e colegas homens que eventualmente façam comentários inadequados sem perceber e, principalmente, falem com seus gestores e líderes sobre comportamentos que não deveriam acontecer.

Segundo, saibam que suas carreiras não podem esperar a igualdade chegar. Apesar da importância de falar (e agir) sobre o assunto, para que continuemos a avançar na direção de um mundo mais igual, a realidade é que não podemos nos dar ao luxo de esperar isso acontecer para avançar profissionalmente. As nossas carreiras estão aqui e agora.

Por fim, ajudem umas às outras. O caminho já é difícil o suficiente, e sermos gentis e generosas certamente compensa. Em algum momento vocês vão se deparar com uma situação de poder ajudar uma mulher que esteja sendo interrompida, ignorada ou até mesmo em uma situação de abuso. Não percam a oportunidade de ser a mudança que queremos ver no mundo, e ofereçam ajuda.

Luciana Caletti, cofundadora e CEO do Love Mondays

Luciana Caletti é cofundadora e CEO da Love Mondays, plataforma em que profissionais avaliam as empresas onde trabalham. Antes de realizar o sonho de empreender, Luciana trabalhou como gerente de marca na Johnson & Johnson e como consultora de gestão na Capgemini Consulting, ambos na Inglaterra. Luciana é bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem MBA na Universidade de Oxford.

Durante sua carreira, você enfrentou algum desafio específico por ser mulher?

Eu sempre tive muita sorte. Antes de fundar o Love Mondays, trabalhei em empresas que sempre prezaram muito pela equidade de gênero e por diversidade em geral, muito antes de esses tópicos se tornarem mais presentes no nosso dia-a-dia. Então nunca senti nenhum desafio específico nas empresas onde trabalhei. Mas já prestei consultoria para países com uma cultura bem diferente, com ambientes formados só por homens e as pessoas geralmente não vinham falar diretamente comigo, pois só se sentiam à vontade para conversar com meus colegas homens.

Quanto ao mundo das startups de tecnologia, posso afirmar que ainda é um ambiente muito masculino. Eu acho que o segredo é você se sentir à vontade em um ambiente onde é a única mulher ou uma das poucas mulheres. Isso é bem importante para a gente começar a ter mais de nós participando de cargos de liderança: não devemos nos acanhar ou nos intimidar, e sim tentar participar da mesma maneira.

Alguma mulher te inspirou durante sua trajetória profissional? Quem e por quê?

Para mim, uma grande inspiração é a Sheryl Sandberg, COO do Facebook. Eu li o seu livro e ele realmente me ajudou muito a pensar sobre como seguir minha carreira, mesmo depois de ter filhos. Ela sempre fala de coisas muito práticas, como a importância de se ter uma rede de apoio e trazer a sua pessoa parceira para junto de você.

Que conselho você daria para profissionais mulheres que querem crescer na carreira?

Eu acredito que vocês não devem se intimidar ao participar de eventos e conversas, mesmo sendo a única mulher. A gente precisa mudar essa proporção e, infelizmente, isso só vai acontecer quando mais de nós começarem a participar. Também é importante que esse sentimento esteja presente em mulheres que chegaram recentemente a cargos de liderança, para que elas continuem desbravando o futuro.

Também acho que a questão de confiança é extremamente importante. Muitas vezes, a mulher pondera muito mais antes de dar uma opinião e é preciso ter essa determinação para se posicionar e participar ativamente dos diálogos corporativos.

Vejo que muitas mulheres têm um baixo apetite a riscos, sendo mais resistentes do que o homem para assumir desafios, opiniões e projetos mais ousados que possuem maior chance de dar errado. Ao se jogar mais em oportunidades desse tipo, as mulheres vão conseguir maior visibilidade para seu potencial, aumentando seu impacto dentro da empresa.