Cresça profissionalmente, Gerencie sua carreira

Profissionais LGBT+ acreditam que se assumir no trabalho pode ferir sua carreira

Um bom local de trabalho deve ser acolhedor para todas as pessoas. Isso significa que todos devem se sentir confortáveis para exercer suas atividades cotidianas sendo como são, sem reprimir a forma como se expressam, sua identidade de gênero ou sexualidade.

Além de ser socialmente mais confortável para todos os tipos de pessoas, as empresas que se preocupam com a inclusão dentro de casa podem apresentar resultados financeiros até 21% melhores, segundo uma pesquisa da consultoria McKinsey and Co.

O estudo investigou empresas de 12 países para descobrir se ter um time de executivos mais diverso impacta no sucesso de um negócio e, no caso específico da diversidade cultural e étnica, essa variação chega a até 33%.

Mas a inclusão, naturalmente, não impacta somente nos resultados de uma empresa: ela afeta diretamente a forma como milhares de profissionais se sentem.

Para medir esse impacto, realizamos uma pesquisa com 1544 profissionais que se identificam como pessoas LGBT+ entre os dias 6 e 11 de junho de 2019, mês que marca o orgulho da causa. Dentro dessa amostra, 126 são trans.

Os dados revelaram que 66% dos respondentes acreditam que se assumir como uma pessoa LGBT+ pode ferir a carreira profissional, mostrando que grande parte da comunidade ainda sente receio em demonstrar quem é no ambiente de trabalho.

A realidade no ambiente de trabalho

Quando questionados sobre preconceito, 35% declararam que já sofreram algum tipo de discriminação no trabalho por conta de sua orientação sexual ou de gênero. Esse número cresce e chega a 40% no caso dos profissionais trans.

Para Tatiane Sugui, responsável pela área administrativa e financeira do Glassdoor, muita gente confunde a orientação sexual e identidade de gênero com competência profissional. “Uma vez sofri assédio moral do meu próprio chefe em outro emprego. Nós havíamos discutido por conta de coisas do trabalho e quando saí da sala ouvi ele resmungando ‘tinha que ser sapatão mesmo’. Logo saí dessa empresa” contou.

O recorte trans

Dentro da comunidade, é a sigla T+ que sofre as maiores dificuldades para se posicionar no mercado de trabalho. É o que defende Luca Scarpelli, profissional que atua na área da comunicação e que também mantém um canal no Youtube em que compartilha sobre sua vivência como homem trans.

Ele contou que seu caso foi uma exceção comparado ao que acontece com a maioria das pessoas trans no mercado de trabalho. Na época em que começou o processo de transição, Luca estava trabalhando em uma agência de comunicação que o acolheu e respeitou sua identidade de gênero.

Mas ele afirma ser ainda muito comum que empresas não respeitem o nome social e os pronomes corretos para profissionais trans. “Muitos até mesmo acabam sendo demitidos durante o processo de transição”.

No entanto, os obstáculos enfrentados por esses profissionais muitas vezes têm raízes mais profundas. “Não basta ter uma política de tolerância zero à homofobia. Quando a gente fala de identidade de gênero, há um problema estrutural em que as pessoas trans nem sequer alcançam qualificação para competir com outros profissionais” explica. Muitas pessoas trans abandonam a escola ou a faculdade por sofrerem bullying extremo, por exemplo.

“Uma vez fui a uma reunião em uma empresa que se declara acolhedora, mas tem um processo seletivo que exige inglês fluente, curso superior completo e uma série de outras exigências. Essa empresa já está estruturalmente excluindo pessoas trans”, exemplifica. O profissional defende que as companhias, mais do que receber bem a população trans, também devem pensar em políticas afirmativas e ações de formação.

Acolhendo colegas LGBT+

Embora algumas ações caibam às pessoas que ocupam cargos de liderança, cada profissional da empresa deve fazer sua parte para construir um ambiente de trabalho acolhedor e respeitoso.

Uma forma de fazer isso, segundo Tatiane, é tratando os colegas LGBT+ com normalidade. “Somos pessoas normais, não temos nenhum tipo de doença ou incapacidade. Eu gostaria que todos agissem normalmente comigo no ambiente de trabalho”, defende a profissional.

Luca dá outra dica: “Acima de tudo, é preciso saber respeitar a individualidade de todos. É preciso respeitar como aquela pessoa quer ser chamada e que pronome ela espera que seja usado. Se você tem dúvidas, pergunte a ela educadamente”, aconselha. “A partir da resposta, trate-a como gostaria de ser chamada”.

Os dois profissionais também acreditam que todos aqueles que defendem a causa, mesmo que não sejam do grupo LGBT+, devem ser proativos no combate à LGBTfobia. Isso significa que ninguém deve ficar calado ao ouvir comentários pejorativos e medidas de combate devem ser apoiadas por todos.