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Rede social no trabalho: alguém ainda tem dúvida se pode ou não pode?

Glassdoor Team
Glassdoor Team, Author & Career Expert at Glassdoor | 1 de fev. de 2017
Quando me perguntam se sou a favor ou contra a liberação do uso de redes sociais no trabalho chego a me espantar. Sabe aquele tipo de assunto que, de tão óbvio, você precisa pensar antes de responder de forma a não deixar o seu interlocutor sem jeito? Pois bem. Este é um bom exemplo. Acontece que, esses dias, ao continuar minha empolgante leitura do livro “Sapiens, uma breve história da humanidade”, do Yuval Noah Harari, me deu um clique do porquê a resposta me parece tão óbvia, usando um argumento melhor do que simplesmente: “a tecnologia é um caminho sem volta, e se você ainda acredita que o seu problema de produtividade tem a ver com o uso de redes sociais, desculpe! Talvez você entenda muito pouco sobre a nossa espécie”. Pronto, falei! Mas vamos tentar aprofundar um pouquinho mais.
Primeiramente, vale delimitar o que estamos chamando aqui de rede social. Arrisco dizer que muitas vezes empregamos este termo como sinônimo de mídia social, o que acaba sendo um equívoco. Por definição, rede social é uma estrutura social composta por pessoas ou organizações conectadas por um ou vários tipos de relações, que compartilham valores e objetivos comuns. Seria então mais correto dizer que mídia social é um tipo de rede social, que se tornou realidade com o advento da tecnologia e da internet.
Pois bem, dito isso, podemos evoluir na linha de raciocínio. As mídias sociais tornaram possível a construção de redes sociais virtuais, como uma evolução de algo que já acontecia no “mundo real” desde...bom, desde tanto tempo que precisei de ajuda dos universitários (um doutor de história e autor de best seller, mais precisamente) para este próximo parágrafo aí:
“O surgimento de novas formas de pensar e se comunicar, entre 70 mil anos atrás e 30 mil anos atrás, constituiu a Revolução Cognitiva (...). Nossa linguagem singular evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo. Mas as informações mais importantes que precisavam ser comunicadas eram sobre humanos, e não sobre leões e bisões. Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo Sapiens é antes de mais nada um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e reprodução”, escreveu Yuval Noah Harari, em seu livro Sapiens.
E vejam só que coisa: se há 30 mil anos a gente já se organizava em grupos e era chegado em uma bela fofoca, o que faz algumas empresas, em pleno século XXI, proibirem o uso de mídias sociais no horário de trabalho? Excluindo dessa crítica um grupo pequeno de empresas que precisa restringir o acesso a sites não seguros por conta da segurança da informação (porque isso existe e deve ser levado a sério. Só não tente enganar o seu colaborador, porque ele sabe exatamente quando as políticas de segurança são usadas apenas como desculpa), convido as demais para algumas reflexões sobre o tema:
- Somos seres sociais!
Antes das mídias sociais ocuparem tanto espaço em nossas vidas, diversas coisas supriam a nossa necessidade de socialização no ambiente de trabalho: levantar para ir até o café, puxar papo com o colega da mesa ao lado, aquela caminhada longa e demorada até o banheiro... E quando o ambiente é opressor e não dá espaço para a socialização, sempre há aquela alternativa conhecida por todos: o Happy Hour.
A real é que com internet ou sem internet, sempre tiramos um tempinho para conversa paralela. É por isso que proibir o uso de mídias sociais no trabalho me parece tão absurdo quanto proibir um colaborador de ir ao banheiro ou parar para tomar um café.
- Somos seres criativos!
E isso pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Quanto mais vigiado a gente se sente, mais criativo a gente é para burlar as regras. Se você trabalha em uma empresa que bloqueia determinados sites, sabe exatamente o que estou falando. Vira e mexe rola aquele link alternativo, fora o fato de que o smartphone e o 3G, pelo menos nos grandes centros, já estão amplamente presentes em nossas vidas. Se a empresa bloqueia o Facebook, nada como aquela paradinha estratégica para dar uma olhada no celular. O chefe olha feio? Ah, sem problemas. O sinal no banheiro também é ótimo. E aí eu pergunto: quem está enganando quem?
Olhando a perspectiva positiva da criatividade, tenho a crença que nenhuma boa ideia surge do nada. A criatividade é resultado de uma série de referências coletadas ao longo do tempo, e é por isso que o seu momento eureca depende do consumo de informações vindas de diferentes fontes. E adivinhem só qual o melhor método para se obter tudo isso? Sim, a interação social.
As empresas acabam por desestimular seus profissionais a socializarem, desestimulam também a criatividade, perdendo boas oportunidades de capitalizarem o que o ser humano pode oferecer de melhor: a sua capacidade de pensar.
- Mas e a produtividade?
A mídia social é um problema para a produtividade tanto quanto o excesso de papo com o colega da mesa ao lado. Portanto, prefiro enxergar o uso abusivo de qualquer interação social muito mais como um sintoma do que a causa dessa doença corporativa. Ambientes pouco produtivos estão intimamente relacionados com locais e grupos onde o nível de confiança é baixo. Se a relação é “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, e as pessoas não se enxergam como parte de um todo, certamente não hesitarão em “roubar” horas de seu empregador. Se as pessoas não entendem o seu papel, não sabem como o seu trabalho contribui para os resultados da empresa e não acreditam nos valores compartilhados pelo grupo, resistirão bravamente ao pedido de “vestirem a camisa” da companhia. Afinal, a falta de confiança nos faz acreditar que o outro está lá para trapacear, prejudicar, explorar...quem consegue dar o seu melhor em um ambiente assim?
Pela minha experiência em RH, acredito que é da empresa a responsabilidade de criar e nutrir um ambiente onde haja confiança. Neste contexto, o papel do time de liderança é fundamental para que ao invés de vigilância, haja orientação. No lugar de proibição, existam bons combinados (como metas, por exemplo). E que a baixa produtividade seja vencida pela cooperação social, um instinto essencialmente humano.
Gabrielle Teco
Consultora, palestrante e articulista sobre carreira e empreendedorismo
Ex-Head de RH & Marketing da ACESSO, empresa que figura entre as 10 melhores para trabalhar no Brasil segundo o Great Place to Work

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